
É ridículo chamar Roger Waters de nazista

Tony Goes para a Folha de S.Paulo
12 de junho de 2023
Quando as novelas começaram a fazer sucesso no Brasil, no início da década de 1960, era comum que na vida real atores que encarnavam vilões fossem agredidos no meio da rua. Uma parte do público, ainda desacostumada com a dramaturgia, simplesmente confundia intérprete e personagem.
Algo parecido está acontecendo em 2023. Roger Waters, ex-líder da banda Pink Floyd, vem causando comoção em diversos países. O motivo de tamanha celeuma é prosaico: um sobretudo de couro preto que Waters usa em cena, num dado momento de seu show “This Is Not a Drill”, que marca sua despedida dos palcos. O figurino tem braçadeiras com um logo que, de longe, lembra a suástica, e muita gente achou que se tratasse de uma apologia ao nazismo.

Reprodução YouTube
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A polícia de Berlim, na Alemanha, está investigando Waters por incitação ao ódio. O Departamento de Estado dos EUA, equivalente ao nosso Ministério das Relações Exteriores, soltou uma declaração dizendo que o novo espetáculo do músico é “profundamente ofensivo ao povo judeu”.
Aqui no Brasil, o advogado Ary Bergher, vice-presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), entrou com uma ação para que Roger Waters seja impedido de ingressar no país. A repercussão da notícia foi tão grande que levou Flávio Dino, ministro da Justiça e da Segurança Pública, a se manifestar no Twitter, lembrando que a Constituição proíbe a censura prévia. Mas Dino também afirmou que Waters estará sujeito a punições se, de fato, fizer qualquer tipo de divulgação do ideário nazista.
De fato, o casaco usado por Waters no show lembra o uniforme da SS, a sinistra organização paramilitar que apoiava Adolf Hitler. Só que… o músico está interpretando um personagem. O próprio Waters já veio a público explicar que faz um “um demagogo fascista desequilibrado” naquele momento do espetáculo. É um personagem de “The Wall”, o álbum duplo conceitual que o Pink Floyd lançou em 1979 e que conta a história de Pink, um astro do rock que constrói um muro figurativo entre ele e o resto do mundo.

Uma das razões para esse isolamento auto imposto foram os abusos que Pink sofreu nas mãos de professores autoritários. Mais tarde, já adulto, ele tem alucinações e vê a si mesmo como um ditador fascista e racista. Depois de muita loucura, no final Pink busca derrubar a “parede” e se reconectar ao mundo.
Essa história virou filme nas mãos de Alan Parker, o mesmo diretor de “Fama” e “O Expresso da Meia-Noite”. Lançado em 1982, “The Wall” traz, no papel principal, Bob Geldof, então vocalista da banda Boomtown Rats e, mais tarde, idealizador dos concertos beneficentes Live Aid. Há uma sequência em animação que representa um delírio do protagonista e nela já aparecem os dois martelos cruzados que estão nas braçadeiras do sobretudo de Waters.
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“The Wall”, entre outras possíveis interpretações, aponta para o perigo do fascismo latente em cada um de nós. O que é totalmente coerente com as opiniões políticas de Roger Waters. Ao longo de seus muitos anos de carreira solo, o músico sempre se posicionou como um simpatizante da esquerda.
Quando esteve pela última vez no Brasil, em 2018, Waters projetou a frase “Ele Não” no palco de shows, manifestando clara oposição ao então candidato Jair Bolsonaro. Também homenageou Marielle Franco, a vereadora carioca que havia sido morta no início daquele ano, e denunciou a ascensão da extrema direita em diversos países do mundo.

Alguns posicionamentos de Roger Waters são questionáveis. Ele não vê nuances no conflito entre israelenses e palestinos e se coloca 100% ao lado destes últimos. Isso lhe valeu acusações de antissemitismo, o que é um exagero. O músico também andou dizendo que Volodomir Zelenski é parcialmente responsável pela invasão da Ucrânia pelos russos, algo que Lula também repetiu – e que custou críticas contundentes a ambos na Europa, onde a maior parte da opinião pública tem ojeriza a Vladimir Putin.
No fundo, Roger Waters é um mala. Aos 79 anos de idade, ele é um dos astros do rock que mais claramente se colocam contra o autoritarismo. Mas algumas de suas ideias envelheceram mal e exalam a naftalina do esquerdismo de centro acadêmico da década de 1970.
Mas bastaria a qualquer pessoa dar uma googlada para descobrir que, de nazista, Waters não tem nada, muito pelo contrário. Seus atuais algozes não conhecem sua obra ou suas opiniões nem se deram ao trabalho de pesquisar. Tomaram o tal do sobretudo negro pelo valor de face, sem prestar atenção no contexto. Agora passam por um merecido ridículo, pois agem como se quisessem prender Adriana Esteves pelos crimes da Carminha de “Avenida Brasil”.
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De total acordo. A própria carreira do Waters já chama pra si uma luta real contra o facismo.